Ei, você-anjo aí, me dá um dinheiro aí! - Angel Education

Ei, você-anjo aí, me dá um dinheiro aí!

Afinal, que (anjos) diabos é uma “startup”?
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Startups = CRESCIMENTO!
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Ei, você-anjo aí, me dá um dinheiro aí!

Por Fábio Póvoa*

 

O Carnaval acaba de acabar, e começa o ano no Brasil 😉

Dos meus tempos de folião, as marchinhas de Carnaval são a primeira coisa que me vêm à mente. Quem não se lembra da cabeleira do Zezé (“será que ele é?”), das águas que vão rolar (“garrafa cheia não quero ver sobrar”), mamãe eu quero (“mamar !”), ó abre alas (“que eu quero passar”), entre tantas outras inesquecíveis.

Uma marchinha em particular guarda enorme semelhança com minha atividade de investidor anjo líder:  “Ei, você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí!”

Nestes 4 anos como investidor anjo em tempo integral, pude interagir por milhares de vezes com empreendedores em busca de capital.  Eles chegam de todos os lugares – demodays, Linkedin inMail, cold mail, apresentados por outros investidores e empreendedores, no sindicato do Broota, alunos da disciplina de Empreendedorismo na Unicamp ou nos cursos de angel investing.

E a triste constatação é que a esmagadora maioria dos casos faz jus ao amadorismo do verso “Ei, você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí …”. Esta impressão é compartilhada por vários colegas investidores anjos – ainda que poucos tenham a ousadia de articular isso.

Desde a abordagem, passando pelo estágio da startup, materiais de captação (pitch deck) e terminando com os termos do deal, a lista de erros básicos é infelizmente extensa: Cold LinkedIn InMails (pagando Linkedin para me contatar!?), inexistência de co-founder com background técnico, produto e serviço sequer tendo sido lançado (MVP) e sem mínima validação de tração ou monetização, pitch decks em slide master do PowerPoint sem informações básicas (benchmark competitivo, market sizing, tração, unit economics), solicitação de assinatura de NDA no primeiro contato,valuations inflados totalmente fora da realidade.

Seria suficiente para escrever um livro. E é exatamente o que irei fazer neste espaço: não um livro, mas uma série de blog posts apontando os erros, mostrando minha perspectiva, realizando críticas construtivas e sugerindo melhores práticas. O objetivo é contribuir em escala, na medida em que muitos outros anjos, empreendedores e leitores dos nossos textos, possam ter a opinião crítica de um investidor anjo do outro lado da mesa.

Que tal começar já, com um tema que está na raiz da maioria dos conflitos, ruídos e desentendimentos que podem surgir no relacionamento entre empreendedor & investidores?

 

 

O dilema das expectativas

O desencontro de expectativas é a raiz da maioria dos conflitos.

Em particular, expectativas irreais ou não claramente definidas, originárias da falta de experiência, capacitação ou mesmo de um marco claro delineando responsabilidades e direitos, em uma negociação com indivíduos em geral inexperientes nos 2 lados da mesa.

Um desastre esperando pra acontecer.

1) “Early” stage investing

 

O investimento em startups, empresas em estágio inicial, é comumente qualificado como “early stage investing”. Para melhor entender o dilema do investimento neste estágio, vale entender a outra ponta do espectro: o contexto de levantamento de capital por empresas maduras, denominado “late stage”.

Late stage são os estágios avançados de rodadas de investimento, quando uma empresa já consolidada recebe investimentos privados em rodadas degrowth (crescimento), mezzanine ou, desejo mor de todo empreendedor e seus investidores, o IPO (initial public offer, ou oferta pública inicial), marco financeiro na jornada de uma empresa, que abre seu capital para receber investimentos do público em geral, dando liquidez a seus acionistas e investidores.

Tais rodadas late stage são realizadas por fundos de VC e private equity, dirigidos por gestores experientes, e no caso do IPO, os termos do investimento são analisados por bancos de investimentos, dissecados por empresas de auditoria, e acompanhados de uma enormidade de documentos registrados junto a órgãos governamentais, como a SEC (Security and Exchange Comission, análoga à CVM, Comissão de Valores Mobiliários).

O contraponto do early stage investing é que, obviamente, nada disso faz sentido, ou sequer existe em startups, para as quais projeções financeiras de 5 anos são mais criatividade do que extrapolação de tendências financeiras conhecidas. Da mesma forma, um investidor anjo pode a rigor ser qualquer um que tenha saldo na conta bancária, tal como um colega de trabalho, um tio rico, um investidor anjo dedicado, um profissional liberal, um expert no segmento da startup, um investidor do mercado financeiro querendo diversificar. Enfim, qualquer um capaz de fazer um cheque. E, do outro lado, startups podem estar nos mais diferentes estágios, desde uma vaga idéia, um pitch deck, um produto com funcionamento básico, já com um primeiro cliente pagante, ou algum crescimento de receita ou outro indicador chave que demonstre tração.

Em resumo, não há um marco claro que defina, do lado do investidor quem é anjo, e muito menos, do lado da startup, quais requisitos mínimos ela deveria ter para levantar capital. Tal ausência de uniformidade resulta comumente na interpretação equivocada por empreendedores e investidores de que é possível levantar capital – com “ajuda” ou “smart money”  – em qualquer estágio de maturidade da startup.

O terreno das expectativas começa então a ser semeado, e cresce com…

2) A falta de educação empreendedora e de investimento anjo

Você aprendeu Português, Matemática, Biologia… entrou na Universidade e se aprofundou em disciplinas específicas de acordo com sua opção de curso. Computação, Design, Marketing, Administração, Engenharia… mas onde e quando você aprende a ser empreendedor? E a ser investidor anjo?

Ou não aprende, é um dom nato, um talento codificado no DNA, uma espécie de Neymar dos negócios? Quem sabe ainda é melhor sair fazendo: desenvolve um app, lança, tenta fazer uma campanha no Facebook, e vai sendo forjado na porrada cotidiana, a torto e a direito, girando mil pratos e apagando mil incêndios? Ou, ainda, pra aprender tem que ter uma idéia e entrar numa aceleradora?

Nenhuma das opções anteriores.

A metodologia, processos e ferramentas que permitem a um empreendedor tirar uma idéia do papel, validá-la e atingir um grau de maturidade a ponto de fazer sentido um aporte de venture capital já foram amplamente estudadas, aplicadas, refinadas e incorporadas ao ensino básico e, particularmente, nos cursos de Graduação, e certamente de MBA, no Vale do Silício. Quando cursei meu MBA no Vale do Silício, conheci esta metodologia ao ser aluno, mentorado e professor treinado pelo seu criador, Steve Blank. Ao retornar, tive a oportunidade de trazê-la pioneiramente para o Brasil na Unicamp, através da disciplina de Empreendedorismo Lean Startup (veja um exemplo de aula Empreendedorismo como Opção de Carreira), e cujo conteúdo em breve esperamos ofertar via Angel.Education em âmbito nacional, com vídeos online conjugados com interação presencial.

Ao analisar vários dos pitches que recebo, é possível notar que a maioria dos empreendedores que procuram investidores estão menos em busca de capital (muitos nem colocam o montante e termos da rodada no slide final), mas sim de orientação, experiência, dicas e melhores práticas, enfim, de um rumo para fazer sua startup crescer.

Algo análogo vale para investidores anjos. Mais do que simplesmente fazer um cheque, o investimento anjo contempla um processo complexo de definição de teses de investimento, busca de oportunidades, diligência básica para validação dos fundamentos do negócio, estruturação do investimento de alto risco sem colocar em perigo o patrimônio pessoal, contínuo acompanhamento e apoio à startup e seus founders, e desinvestimento final, seja com perda contábil, pagamento do empréstimo conversível ou lucro em rodada futura. Foi exatamente por constatar o baixo conhecimento de muitos investidores interessados em investir comigo que decidi liderar um sindicato no Broota e formatar um curso de investimento anjo – vide Angel.Education – compartilhando teoria, metodologia, melhores práticas, modelos de documentos e toda a minha experiência de 4 anos como investidor anjo em tempo integral.

Tem-se por fim um universo de startups lideradas por founders sem formação empreendedora básica, e portanto sem conhecimento da metodologia para levar sua idéia a um estágio maduro, buscam capital e “ajuda” de investidores. Anjos que em geral são bem intencionados, mas não dominam as particularidades e altos riscos de investimento em estágio inicial, não dispõe de tempo para acompanhar de perto as startups investidas, estão  acostumados à renda fixa ou investimento em ações, mas ao mesmo tempo ficam encantados por uma nova tecnologia disruptiva que pode gerar múltiplos de retornos ao seu capital.

É neste contexto de falta de marcos claros no investimento early stage e baixa formação empreendedora e de investimento anjo que nasce o amadorismo na abordagem, apresentação (pitch) e na própria concretização (indicadores de performance, canais e experimentos de tração) da  oportunidade de investimento, razão pela qual lembrei do verso “Ei você aí me dá um dinheiro aí” no título deste post. O mesmo naturalmente vale para o outro lado da mesa, na busca, avaliação, negociação, acompanhamento, compreensão e cobrança de resultados, por parte de investidores anjos. Só é uma pena que não tinha uma marchinha para rimar com eles ;-).

Mas longe de mim ficar na mera constatação da baixa qualidade dos pitches, ou na crítica pura e simples à falta de educação empreendedora. Desde meu retorno ao Brasil, tenho me empenhado em dar minha contribuição para mudar radicalmente este estado de coisas, senão para desenvolver o país, mas certamente para ter melhores oportunidades (startups) e co-investidores para fazer aportes e ter ótimos retornos.

Assim, se você, founder ou investidor, pôde se reconhecer nos erros e no cenário acima descrito, quero te sugerir algumas referências com enorme potencial para mudar este quadro.

O melhor começo é investir tempo e dedicação na sua própria capacitação.

Empreendedores devem focar na metodologia Lean Startup: duas ótimas opções de livros são Running Lean e Startup Owners Manual.

Investidores anjos devem procurar aprender com investidores experientes, que liderem rodadas e compartilharem sua prática e metodologia. Angel.Education nasceu com este objetivo, e temos tido ótimos feedback sobre o curso de Investimento Anjo de Angel.Education – vide aperitivo do curso – e também nos encontros mensais de educação continuada.

Em ambos os casos, empreendedor ou investidor, sugiro que assine esta newsletter: esperamos que nossos textos apresentem, critiquem e debatam vários dos pontos colocados, com sua explanação, erros percebidos, casos de sucesso e sugestões práticas, contribuindo para seu crescimento e aprendizado.

Ao fim e ao cabo, caro founder, você evitará os erros básicos no pitch, irá saber amadurecer e tracionar seu negócio por conta própria, e naturalmente aumentará significativamente as chances de um investidor anjo se interessar e aportar capital na sua startup.

E com isso nem precisará terminar o verso da marchinha, que diz “Não vai dar, não vai dar não, você vai ver que grande confusão eu vou fazer, bebendo até cair, oi! …. me dá, me dá, me dá, oi!, me dá um dinheiro aí!”

Relembre esta marchinha antiga de carnaval (YouTube)

 

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Fábio Póvoa é um dos maiores Investidores Anjo do Brasil, professor de Lean Startup na Unicamp e Head do fundo Smart Money Ventures. Contribui assiduamente com conteúdo de relevância para a Angel.Education e atua como um dos maiores formadores de novos investidores no país através de treinamentos e palestras.